Tuesday, October 05, 2004

"Diziam que não sabiam quem era"


Ou dirá que sabia quem era, mesmo sem ter conhecido. São coisas diferentes. Saberá quem foi, que existiu. Antes que se lembrasse, desapareceu. Ainda esteve com ela, ouviu a voz, sentiu a pulsação, os passos com que dançava. Mas não irá a tempo da recordação, que se esfuma quando o acontecimento chega cedo demais. Sim, a mãe do papá era uma pessoa muito especial, chamava-se Maria. Saberão isto. Talvez uma imagem ténue, mais ligada ao espaço físico, cenário, casa branca, Moledo. A figura da Avó, qual será? Haverá?
Eu tenho a recordação por inteiro. Acho que esta fase, triste, final, será mais uma dedada no quadro. Tenho a avó no mar, com as ondas altas, sempre. Os fins de semana em que nos ensinou a dizer asneiras. As tardes entediantes com os netos dos amigos. O armário propositadamente aberto para roubarmos os chocolates. Conjunto tão especial, para sempre guardado num cantinho açúcar, sem mácula pelo desfecho.
Luísa, Catarina. Não é a ausência de episódios gravados que me assusta. Apercebi-me que, se tiverem alguma ideia concreta da avó, serão palavras incoerentes, ideias soltas, passos curtos, dependentes. O Nuno chega em Dezembro. Sei que não chegará a tempo de a conseguir recordar. Irá conhecer, mas no futuro apenas saberá quem era, ou foi. Através das palavras dos outros. Incomoda-me esta facilidade com que as pessoas nem constam do imaginário das outras, efeito de uma rasteira do calendário. Efemeridade. Memória que perdura a médio prazo.
Para mim: Onde? Para onde?
Para Eles: Quem? O quê?

Sunday, September 26, 2004

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